Avaliação dos ProgramasProgramas de Desenvolvimento Regional



A questão das desigualdades regionais no País possui profundas raízes históricas e se evidencia sob uma variada gama de aspectos. Dentre as diversas dimensões do problema, as mais evidentes estão relacionadas à produção e à qualidade de vida. O quadro das desigualdades no Brasil, pelo ângulo do Produto Interno Bruto, apresenta um desenho macrorregional bastante conhecido (tabela 1), com uma situação de desequilíbrios regionais ainda muito expressiva. Este quadro se apresenta levemente alterado pela expansão da fronteira produtiva do Centro-Oeste e por uma lenta tendência de desconcentração do produto e do emprego.


Em relação à população residente, destaca-se a posição do Nordeste (produto per capita 3 vezes menor que o Sudeste), onde o quadro das desigualdades supera em muito o alcance das políticas de crescimento econômico em vista de um deficiente quadro social.

Com referência ao emprego, as desigualdades apresentam quadro igualmente agudo. As Regiões Norte e Nordeste detêm os menores índices de emprego formal1 em relação às suas respectivas populações (7,9% e 8,6% em 1999). De acordo com este indicador, a posição do Centro-Oeste é bastante favorável, principalmente quando se considera o elevado nível de formalização do emprego no DF, que é superior a 30% da população2.

Ante a inexistência de estatísticas ágeis e desagregadas para questões territoriais e considerando-se as dimensões das desigualdades mais freqüentemente tratadas (produto e emprego), o indicador passível de utilização remete aos levantamentos da RAIS e Caged que, associados, permitem observar a evolução da atividade econômica por setores, com informações municipais (ou seja, permitem qualquer agregação regional) e defasagem temporal mínima. Portanto, sugere-se que o indicador da Orientação Estratégica 5 seja o 'índice de emprego regional' (ver tabela 2).

Segundo este indicador - que compara 1999, 2000 e 2001, na tabela 2 -, os únicos movimentos macrorregionais relevantes foram o acréscimo econômico da Região Norte entre 1999 e 2000, cujo índice varia de 54% para 55% da média nacional; o avanço persistente da Região Centro-Oeste (de 11% para 17% acima da média nacional - com bastante influência do DF); e a queda relativa da Região Sudeste. Em relação à evolução das desigualdades regionais, poucas evidências relevantes podem ser levantadas no decorrer do exercício de 2001, uma vez que alterações efetivas nas condições de disparidade só se evidenciam em períodos mais extensos.


Em conclusão, nota-se que as Regiões Norte e Nordeste ainda constituem o lado mais grave do quadro das desigualdades regionais. Por outro lado, o Centro-Oeste, no seu agregado, não parece justificar um apoio de política regional explícito, a não ser especificamente no tocante à região do entorno do Distrito Federal, local onde os indicadores de emprego se mostram mais precários.

No Brasil, além dos mecanismos previstos constitucionalmente para a redução das disparidades regionais (como os presentes nos critérios de distribuição dos fundos de participação de estados e municípios e nos fundos fiscais regionais), podem ser citadas diversas iniciativas governamentais que contemplam explicitamente critérios diretos ou indiretos de redistribuição regional.

As políticas públicas, na sua quase totalidade, tendem a impactar de forma diferenciada as diversas regiões do País, independentemente de terem sido formuladas explicitamente ou não com este objetivo. Tal fato se explica pela grande diversidade das características de cada região sobre as quais as diferentes políticas atuam.

Os programas do PPA 2000-2003 foram estruturados de forma a contemplar um elenco de orientações estratégicas e macroobjetivos das ações de Governo, dentre os quais destaca-se a necessidade de combater as desigualdades regionais. De um lado estão os programas explicitamente direcionados ao enfrentamento desta questão, como os programas de desenvolvimento das mesorregiões, programas de combate à seca, de desenvolvimento hídrico no nordeste, entre outros, além daqueles programas que compõem o Projeto Alvorada3. De outro lado, estão os programas que priorizam áreas deprimidas, utilizando critérios de seleção segundo a precariedade das condições de vida nas regiões, além das intervenções em infra-estrutura de grande porte com impacto estruturante regional.

Assim, um grande número de programas pode, facilmente, ser associado à política regional de redução das desigualdades, permeando diversas atuações setoriais. Como, no entanto, esta associação não está formalizada na lei do PPA e ainda se encontram em aperfeiçoamento as estatísticas de gastos governamentais4, nesta análise foram considerados apenas os programas do Ministério da Integração Nacional explicitamente relacionados ao desenvolvimento macro e mesorregional.

Entretanto, este elenco de programas não apresenta suficiência em relação ao objetivo de reduzir as disparidades regionais. Os programas mais significativos em termos de recursos estão assentados em instrumentos tradicionais de desenvolvimento regional, cuja efetividade foi se perdendo ao longo dos cerca de cinqüenta anos de sua existência. Um dos reflexos do esgotamento deste modelo foi evidenciado pela extinção de dois tradicionais organismos de desenvolvimento (Sudene e Sudam) e pela reestruturação (incompleta e ainda não operacional) de alguns dos principais instrumentos da política: os fundos fiscais Finor, Finam e Funres. Esta desarticulação temporária dos instrumentos de política regional das Regiões Norte e Nordeste deverá trazer algum impacto negativo no decorrer dos próximos exercícios.

Ressalva deve ser feita em relação aos 13 programas de desenvolvimento sustentável de sub-regiões deprimidas, cujo modelo acompanha as tendências internacionais. Estes programas são essencialmente orientados para dotar as mesorregiões de meios gerenciais locais capazes de mobilizar os programas do setor público para atender suas carências, sendo a capacitação gerencial o ponto crítico dessa nova modalidade de enfrentamento da estagnação relativa destas regiões. No momento, entretanto, estes programas não podem ser responsabilizados por transformações profundas em suas mesorregiões, uma vez que se encontram em início de atividades e ainda não contêm os meios suficientes para alcançar seu intento.


Em relação à análise dos possíveis impactos dos programas para as mesorregiões, o quociente de emprego por habitante foi calculado apenas como ilustração, pois, devido às causas acima apontadas, ainda não se poderia esperar resultados visíveis.

Da análise específica dos programas, resta a conclusão de que a política regional brasileira precisa de urgentes e decisivas modificações para efetivamente alterar indicadores de desigualdades. Faz-se necessário reelaborar conceitos e estratégias de desenvolvimento que permitam renovar a política regional, promovendo a transição do modelo fundado no planejamento setorial tradicional para uma visão mais empreendedora do desenvolvimento regional. A mudança de foco das intervenções deveria caminhar no sentido da integração das políticas setoriais de governo articuladas a partir das necessidades regionais, o que demandaria a intensa mobilização e co-participação das forças locais, a capacitação dos atores envolvidos e a maior articulação entre as políticas locais, estaduais, regionais e federais. Enfim, uma visão intensiva em gestão, mobilização e formação de parcerias.

Neste sentido, a lógica que permeou a elaboração do Estudo dos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento, fundada nestes valores e na concretização consensual de um portfólio de empreendimentos públicos e privados estruturadores das economias regionais, parece ser um caminho a ser perseguido. Paralelamente, os programas de desenvolvimento sub-regional podem significar uma mudança promissora, uma vez que concentram atenções em espaços que podem ser mais fielmente monitorados e avaliados e, podem apresentar um processo de aprendizagem e validação de atuações bemsucedidas. Além do mais, a aferição de desenvolvimento da forma acima descrita é tanto mais acurada, quanto é reduzida a abrangência territorial de controle sobre os indicadores, ou seja, será mais eficaz aos programas de desenvolvimento regional do que no âmbito das macrorregiões.

Por fim, sugere-se que o exercício de 2002 seja dedicado a estudos de como remontar a política regional para fins de inseri-la no próximo PPA.

Como recomendações básicas sugere-se: 1) criação de sistema (regular e independente) de geração de estatísticas territoriais relevantes para o problema; 2) adaptação dos instrumentos existentes (inclusive agências) para atuação sub-regional; 3) estudo de instrumentos específicos de atuação para problemas diagnosticados em cada subespaço de atuação; 4) aperfeiçoamento das estatísticas e dos sistemas de informação sobre a regionalização do dispêndio governamental; e 5) aperfeiçoamento dos indicadores dos programas de desenvolvimento regional.



1 A formalização é usada aqui como critério mínimo de qualidade do emprego e considera apenas os registros administrativos do Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS-MTE).

2 A posição do DF também se deve ao fato de que uma significativa parcela de seus trabalhadores reside nos estados vizinhos (região do entorno).

3 O Projeto Alvorada tem como objetivo reduzir as desigualdades regionais, por meio da melhoria das condições de vida das áreas mais carentes do Brasil, por intermédio da destinação específica de recursos de 14 programas do governo federal para estas regiões. O indicador utilizado para medir o grau de desigualdades foi o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do PNUD, que considera três dimensões básicas: a renda, a longevidade e a educação. Em sua primeira fase, sob o nome de Plano de Apoio aos Estados de Menor Desenvolvimento Humano, foram identificados os 14 estados com IDH inferior à mediana do país: AC, AL, BA, CE, MA, PA, PB, PE, PI, RN, RO, RR, SE e TO, todos situados nas regiões Norte e Nordeste. Na segunda etapa do Projeto, denominada de Infra-Estrutura Social Básica para Microrregiões e Municípios Carentes, foram selecionados, também, os municípios com IDH-M abaixo de 0,5 pertencentes às microrregiões com IDH-M superior a 0,5. Essas microrregiões ou municípios estão situados nos estados do AM, AP, ES, GO, MG, MT, PR, RS e SP.

4 O volume de despesas do governo federal contabilizado como "Gastos Nacionais", isto é, sem identificação de localização de gasto, ainda é bastante elevado, requerendo uma série de complexas transformações na estrutura de acompanhamento de gastos e nos sistemas atualmente utilizados. Soma-se a este fato, a concentração de determinados gastos no Distrito Federal, sede do Governo, que absorve uma série de despesas que deveriam ser rateadas por unidade da Federação, o que distorce as estatísticas, como, por exemplo, o caso das despesas de pessoal, de parte do custeio e das forças armadas.



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